Narciso do Banjo

O carnaval de rua do Recife, naquele ano de 1949, não foi apenas mais um carnaval, com as extraordinárias músicas de Capiba, Levino Ferreira, Irmãos Valença, Edgard e Raul Moraes e outros. Foi o carnaval que trouxe, nos cordões de um bloco, o mestre Narciso. O Narciso do Banjo, nascido em 13 de outubro de 1923, no Pina, Narciso Ulisses da Silva, o mais velho dos 14 filhos de Manoel Ulisses da Silva e D. Maria Josefa da Paz, ainda criança já percorria os caminhos da sobrevivência dividindo a sua vida entre a pesca e a venda de coco, que lhes rendiam alguns réis.

“Puxando” o exemplo do pai, que tocava clarinete na Banda Municipal do Cabo e da mãe, que gostava de acompanhar o marido tocando prato, o menino Narciso começou a despertar para a música e já aos 7 anos de idade conseguiu juntar, com muito sacrifício, a importância de 12 mil réis, e comprar do vizinho o seu primeiro instrumento, um cavaquinho.

Em 1932, com a chegada dos filmes americanos de Far West, o banjo começou a ser divulgado e despertou a atenção daquele garoto danado, que, logo, logo, ficou fascinado pelo instrumento.

Sem condições de comprar um banjo, já que, além de caro, era um instrumento raro, Narciso, sempre curioso, pesquisou, pesquisou até que no final de 1948, saiu juntando peças (uma calota de Impala, surdina e jacarandá) e, quando menos esperava, lá estava pronto o seu Banjo, eterno companheiro de tantas jornadas.

Narciso saia pela primeira vez no carnaval oficial da Federação Carnavalesca de Pernambuco, em 1949, engrossando as fileiras da orquestra do Bloco Carnavalesco Banhistas do Pina. Desde lá o mestre Narciso nunca mais parou e tornou-se personagem importante no carnaval do Recife, tocando em agremiações carnavalescas, boates, cassinos e até nas mais famosas “zonas” da cidade.

Narciso do Banjo, passou a integrar também, as orquestras de Blocos famosos como: Batutas de São José, Madeira do Rosarinho, inocentes do Rosarinho, Bandos Praieiros do Pina, Somos do Mato, Diversional da Torre, Aviadores do Perez, Flor da Lira de Olinda, Lira da Noite, Rebeldes Imperial, Flor da Lira de Santo Amaro, além das Escolas de Samba: Sempre no meu Coração, Madureira do Pina, Santelmo do Pina, Amigos do Ritmo, Unidos do Pina e, nas Troças Carnavalescas: Tubarão do Pina, Reis dos Ciganos e Siri do Pina.

O mestre Narciso do Banjo integrou também conhecidos grupos regionais do Recife como: Quem é Bom Já Nasce Feito, Aluizio e seu Bandolim, Eu e Você, Sempre no Meu Coração, Requinte do Pina, além dos Ursos de Carnaval: Urso Preto do Pina de Dentro, Urso Branco da Mustardinha e Urso Branco do Jordão.

Em 1974, o mestre Narciso foi convidado para integrar a orquestra do Bloco da Saudade, arregimentando os músicos com seu inconfundível apito e os acordes do seu eterno e inseparável Banjo. O mestre Narciso ainda deu a sua colaboração aos Blocos do Recife, como: Lily, Aurora de Amor, Ilusões, Vitória Régia, Pierrô de São José, Apóis Fum, Bloco das Flores, Meninas da Bolsinha e o Cinta Azul de Paratibe.

No CD “O Requinte de Narciso do Banjo”, depois de anos de lutas e expectativas, o mestre Narciso do Banjo reuniu um repertório variado composto de sambas, chorinhos e frevos de bloco e de rua, sempre ancorado na simplicidade e carinho do seu irmão João Ulisses da Silva, músico e compositor, além de companheiros, num trabalho requintado no que existe de mais verdadeiro da nossa música.

"A Narciso, humilde como era, apesar do nome, nunca foi dado o destaque que mereceu. (...) Como sempre, os músicos são os eternos esquecidos em agremiações onde predominam mais a vaidade e o amor ao nome do Bloco, do que aos seus integrantes mais humildes e que, no fundo, fazem realmente a diferença nos desfiles, pela energia e pela música que tocam. (...) Um simples homem do povo, pintor de paredes, mas com uma alma musical comparada à dos pioneiros, fez do Banjo a sua lira, e com uma dessas deve estar agora, qual Querubim dos Blocos do Recife a alegrar, junto como tantos outros irmãos musicais, os dias e noites infindáveis das esferas musicais superiores, trinando as cordas com suas "palhetadas" que nos davam tanta energia e tanta alegria. (Fred Monteiro)